fAu | Zelmar Dutra: uma vida de combate pelo socialismo e pela liberdade

Posted on 24/05/2019 by

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Texto da Federação Anarquista Uruguaia (fAu). Original em: http://federacionanarquistauruguaya.uy/zelmar-dutra-una-vida-de-combate-por-el-socialismo-y-la-libertad/

Zelmar está para sempre entre nós. Não se foi, está aqui. Enquanto houver luta por uma sociedade distinta, socialista libertária, estará entre nós. Não é uma frase formal, sua trajetória nos acompanhará dizendo muito e é por isso que nós o sentiremos aqui.

Relembrando-o trataremos de fazer uma breve perfil militante deste querido e abnegado companheiro. As atividades que participou, que não foram outras das distintas tarefas que são necessárias a uma organização específica.

“Um companheiro foi preso, o levaram para a delegacia da outra quadra, vamos tirá-lo”. Era uma proposta feita na rua, no contexto de uma mobilização de rua, em enfrentamento a repressão policial. O preso era nesta oportunidade Zelmar que havia resistido com todas suas forças a questão repressiva. Dezenas de companheiros se agruparam na frente da delegacia e exigiam que o soltassem. Zelmar era assíduo naquelas mobilizações que se realizavam, várias por semana, vinculadas a reivindicações operárias e estudantis da década de 60. Não pedia um posto de luta, o tomava.

Sua infância foi sofrida, de origem humilde. Soube desde criança como sentem e vivem os de baixo. Teve um longo trânsito pelo infame caminho da pobreza, da falta de tudo aquilo que permite uma vida simplesmente regular neste mundo de opressão, de muitos privilégios para poucos e muita miséria para os demais. Mas isto não lhe marginalizou ou o fez um ressentido, pelo contrário, lhe permitiu ir ao encontro da esperança de um mundo melhor. Mas a experiência crua lhe havia ensinado que esse mundo povoado de justiça autêntica e solidariedade só se podia alcançar com muita resistência e luta e que a tarefa começava já.

Nasce e transcorre parte de sua vida em Rivera. Sendo criança passa não ter lugar de família direta, sofre tombos, vai de um lugar a outro. Aos sete anos fica internado no Conselho da Criança. Ainda nestas condições tem um propósito entre acordar e dormir: ir ao colégio. No Conselho da Criança reconhecem sua habilidade manual e valorizam seu desejo de estudar. Transferem-no para que isto fosse possível. Finamente inicia o colégio em Pando, para chegar a ele tinha que realizar uma longa caminhada todos os dias, persevera e segue até terminar. Nesse colégio que conhece Roger Julien. Juntos, anos depois, ingressam na Escola de Belas Artes. Ali toma contato com as ideias libertárias e participa de atividades sociais da Associação de Estudantes, especialmente nas lutas de rua durante um período. Em princípios da década de 60 se identifica com a FAU, com suas propostas de ação para o meio social do momento e com sua estratégia geral. Conhece um pouco do monstro por dentro das propostas líricas, mas não o atraem, quer uma trincheira para lutar contra a besta mas com métodos adequados.

A universidade estava sitiada pelas forças repressivas, rodeada pelos milicos. Pretendem entrar para despejar a cacetadas quem se encontra nesse momento refugiado ali, depois de um conflito onde a repressão não foi bem sucedida. Foi um longo enfrentamento operário-estudantil no 18 de julho e nos arredores da Universidade. Foram se somando forças às bestas do poder e terminaram cercando as ruas do perímetro de toda uma zona, onde a universidade virou um refúgio. Depois disto um grupo grande de companheiros trancou a porta e ficaram ali reforçando-a para impedir a entrada da repressão. Os milicos jogavam gases e arremetiam várias vezes sem sucesso, a resistência era firme e não puderam quebrá-la. Ali, entre os companheiros de porta estava Zelmar todo o tempo, firme, sereno e disposto.

Não fugia de nenhuma tarefa. Sabia que todas eram necessárias neste combate de classes que circula por todas as artérias do sistema. O espetaculoso não o seduzia, o que o conquistava era qualquer tarefa das necessárias para sustentar no cotidiano essa esperança de futuro, esse futuro que sentia que havia de estar construindo todos os dias em diferentes terrenos sociais.

“Como andam os preparativos?”, lhe perguntavam os companheiros do Cerro a Zelmar num amplo salão da rua Galícia que se estava transformando num salão para atos. Havia se formado grupos de trabalho que faziam horários todos os dias; do grupo da Belas Artes vinha Zelmar e Hugo Garrone. E ali em poucos meses esteve nessa tarefa que foi dura, já que esse galpão estava em condições que iam de regular para ruim. Era a infraestrutura para o projeto de criação do Centro de Ação Popular. Um projeto de atividade social amplo que abarcava distintos matizes combativos. Algo semelhante com o que seria a ROE alguns anos depois.

Zelmar era de falar pouco, mas seguia com interesse e intervinha em discussões sociais e políticas. Um silêncio vivo e expectante o acompanhou por toda sua vida. Modesto como os de verdade, não fazia coisas por ego mas por convicção de que eram questões necessárias e obrigatórias de encarar.

Teve um passagem pelo grupo Violência FAI antes de entrar na atividade da OPR 33. Chamamos-lhe FAI em memória dos companheiros da Revolução Espanhola. O termo violência é porque se assumia a concepção malatestiana de que opomos a violência que oprime a violência que liberta. Conceitualmente se marcava além disso que estamos diante um sistema onde o conjunto de relações de dominação estão assentadas na violência, independente de como se expressem numa ou outra conjuntura ou discurso. Violência FAI, se tratava então, de grupos operativos de apoio a conflitos sindicais e em geral a movimentos sociais de massa. Uma ação operativa ágil e bem próxima a luta de massas. Por exemplo, as ondas sindicais eram frequentes em alguns casos, ondas que nos grandes sindicatos não era fácil de sustentar. Zelmar junto a outros companheiros participou numa expropriação de carnes e um conjunto de artigos comestíveis que foram fundamentais para prolongar essa onda pelo tempo que fora necessário.

“Tudo saiu bem”, disse Zelmar enquanto pôe sobre a mesa um pacote grande. O pacote continha o pagamento da fábrica Acodike. Bem cedo pela manhã, uma equipe da OPR foi até a casa do Gerente, o “levantou” e o trouxe de um automóvel para a empresa. Com o gerente no volante, o vigilante lhe abriu a porta e o que veio depois foi simples. Zelmar fazia guarda a poucas quadras, ali parou o carro onde ia a equipe e lhe entregou o pacote. Os companheiro se foram “limpos” e logo se dispersaram. Zelmar chegou com um sorriso, um pedacinho de revolução alcançado. Não era muito mas podia ir se acumulando. Na metade de 72, se dá uma resolução para evacuar parte da Organização para Buenos Aires. Estima-se que a ditadura estava chegando e que havia de se acomodar a organização para “durar fazendo ” como sinteticamente se dizia. Se evacuava fundamentalmente os grupos da OPR, metade da Junta Federal e alguns companheiros vinculados a tarefas internas gerais. Ficava o grosso dos companheiros que trabalhavam no meio sindical e popular. Se havia proposto que Buenos Aires era um bom lugar para fazer as finanças, tanto para as que logo se necessitariam como para as que eram imprescindíveis frente a etapa que vinha. Restava pouco dinheiro do que sobrou da detenção de Fernández Lladó. Finalmente em 1974 se concretiza a retenção/“sequestro” de um “peixe gordo” pelo que se cobrou 10 milhões de dólares, em poder aquisitivo, uns 90 milhões de dólares de hoje. A ditadura já estava instalada e para levar adiante projetos da organização que andavam em curso se precisava urgentemente de meios econômicos. O trabalho total deste operativo foi longamente complexo. A retenção de Hert durou cerca de seis meses. Implicou um conjunto de tarefa distintas. Numa delas esteve Zelmar. Num das mais difíceis. Foi parte deste operativo junto a companheira de toda a sua vida: Amelie Leivas. Juntos estiveram e militaram toda uma vida na organização.

Conseguiu escapar da Argentina naquela marco feroz de torturas, desaparecimentos e assassinatos de companheiros que levou a adiante a OCOA. Já no exílio realizou distintas atividades sociais, muitas vinculadas as lutas de denúncia contra a ditadura. Regressou ao Uruguai pouco depois da reorganização da FAU. De imediato recomeçou sua militância orgânica. Distintas comissões de trabalho interno contaram com sua presença e energia. No momento de sua morte integrava além de um agrupamento da FAU, uma atividade social: o Ateneu do Cerro.

Foi nosso querido Zelmar, um companheiro profundamente fiel a sua convicção e um exemplo militante. Amava a esperança de uma sociedade justa, livre e solidária. Odiava profundamente este sistema vergonhoso, genocida, que semeia injustiça, fome, xenofobia, exclusões e que está organizado só para um punhado de ricos e poderosos. Esse sistema de que nada podem esperar os e as de baixo. De que não há que usar nenhuma das ferramentas que ardilosamente oferecem como real possibilidade de mudança. Outras necessariamente devem ser as ferramentas para irmos nos aproximando a esse socialismo com liberdade, do poder popular autêntico, pelo qual entregaram-se  tantos povos e militantes. Sim, militantes como Zelmar ao qual hoje recordamos com grande carinho e reconhecimento pela sua qualidade humana e sua entrega militante exemplar. Um companheiro do “avante os que lutam/arriba los que luchan”, sempre.

Tradução: Coordenação Anarquista Brasileira

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